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Cadê o córrego que estava aqui?

2.507 municípios estão secando...

Estudo do MapBiomas revela que Corumbá (MS), Cáceres (MT) e Barcelos (AM) lideram o ranking dos municípios com superfície de água abaixo da média histórica

22/03/2025 - 11:11 Por Wilson Lopes

O ano de 2024 manteve a tendência de redução da superfície de água já registrada em 2023 e em anos anteriores. Os 17,9 milhões de hectares do território brasileiro cobertos por água em 2024 são 2% menores que os 18,3 milhões computados em 2023 e ficam 4% abaixo da média da série histórica iniciada em 1985 pelo MapBiomas, uma rede colaborativa formada por organizações não-governamentais, universidades e empresas de tecnologia interessadas na preservação dos biomas da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Conforme o estudo do MapBiomas, a tendência de queda pode ser observada desde 2009. De lá até 2024, apenas um ano (2022) registrou aumento da superfície de água. Oito dos 10 anos mais secos de toda a série ocorreram na última década.

“A dinâmica de ocupação e uso da terra no Brasil, junto com eventos climáticos extremos, causada pelo aquecimento global, está deixando o Brasil mais seco. Esses dados servem como um alerta sobre a necessidade de estratégias adaptativas de gestão hídrica e políticas públicas que revertam essa tendência”, explica Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água. 

Fonte: MapBiomas

Embora detenha 12% da água potável do planeta, o Brasil tem uma distribuição desigual: 

  • Mais da metade da superfície de água do país (61%) está na Amazônia, onde vivem 29 milhões de brasileiros. 
  • Já a Caatinga, que abriga 32 milhões de habitantes, tem menos de 1 milhão de hectares de superfície de água (981 mil, ou 5% do total). 
  • Com 2,2 milhões de hectares, a Mata Atlântica tem 13% da superfície de água no Brasil.
  • O Pampa, com 1,8 milhão de hectares, conta com 10% do total.
  • O Cerrado, com 1,6 milhão de hectares, tem 9% da água do país. 
  • Pantanal foi o bioma que mais perdeu água

Em 2024, o Pantanal era o bioma com menor superfície de água no país: 366 mil hectares, ou 2% do total. É também o que mais perdeu superfície de água em relação à média histórica: 61%. Em 2024, o Pantanal ficou abaixo da média histórica durante todos os 12 meses. “Desde a última cheia em 2018, o bioma tem enfrentado o aumento de períodos de seca e, em 2024, a seca extrema aumentou a incidência e propagação de incêndios”, ressalta Eduardo Rosa, da equipe do MapBiomas Água. 

Na Amazônia, 63% das bacias hidrográficas registraram perda de superfície de água em relação à média histórica (Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Seca extrema na Amazônia

A Amazônia sofreu uma seca extrema no ano passado, que levou a uma queda de 3,6% em relação à extensão média de água no bioma. Em 2024, a Amazônia apresentou sete meses abaixo da média histórica, de junho a dezembro. Além disso, quase dois terços (63% das 47 sub-bacias) de suas bacias hidrográficas registraram perda de superfície de água em relação à média histórica. 

Os casos mais graves ocorreram em sub-bacias do Rio Negro, que apresentaram uma redução de mais de 50 mil hectares em comparação à média histórica. A perda de superfície de água na Amazônia em 2024 foi de 4,5 milhões de hectares em relação a 2022, que foi o último ano de ganho de superfície no país. Carlos Souza Jr. aponta que “foram dois anos consecutivos de seca extremas na Amazônia, sendo que, em 2024, a seca chegou mais cedo e afetou bacias que não foram fortemente atingidas em 2023, com a do Tapajós.

Territórios vulneráveis à desertificação

Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, por sua vez, estiveram acima da média de superfície de água: 6%, 11% e 5%, respectivamente. No caso da Caatinga, em todos os meses de 2024, os valores de superfície d’água registrados foram os mais altos dos últimos 10 anos. Com isso, a Caatinga encerrou 2024 com 981 mil hectares.  “Os resultados do mapeamento da superfície d’água em 2024 indicam a consolidação de um ciclo de cheias na Caatinga, iniciado entre 2018 e 2019. No entanto, apesar desse cenário favorável, persistem áreas com secas recorrentes, especialmente ao longo da bacia do São Francisco e na região do Seridó Nordestino — territórios particularmente vulneráveis à desertificação.”, relata Diêgo Costa, da equipe Caatinga do MapBiomas Água.

No Cerrado, desde 1985, a superfície do corpo de água natural caiu de 63% para 40%, em função do armazenamento de água em hidrelétricas, reservatórios e áreas de mineração (Wilson Dias/Agência Brasil)

Inversão artificial no Cerrado

No Cerrado, foi possível observar uma inversão entre superfície de corpos de água naturais (rios, lagos e lagoas) e artificiais (reservatórios e represas). Em 1985, 63% da superfície de água do bioma era natural; em 2024, eram 40%. A água armazenada em hidrelétricas, reservatórios, áreas de mineração etc., que os pesquisadores chamam de superfície de água antrópica, passou de 37% em 1985 para 60% em 2024.  Ao todo, a superfície de água no Cerrado em 2024 somou 1630 mil hectares. 

“A construção de grandes reservatórios para geração de energia e a expansão da agricultura irrigada foram os principais motores de transformação na superfície de água no Cerrado. Regiões como a bacia do Alto Paraguai, onde estão as nascentes do Pantanal, foram criticamente afetadas, assim como o oeste da Bahia, onde se observou redução generalizada na superfície de água”, pontua Joaquim Pereira, pesquisador do IPAM e pesquisador do MapBiomas Água. 
Estiagem no Pampa

Já o Pampa, que se encontra no extremo sul do Brasil, apesar dos eventos climáticos extremos, com cheias históricas no Rio Grande do Sul, ainda aparece com uma superfície de água de 0,3% abaixo de sua média histórica “Apesar de o Bioma Pampa historicamente apresentar chuvas distribuídas ao longo do ano, é característico na região a ocorrência de estiagens no período de verão. O Pampa teve um início de ano com estiagens, sendo o mês de março o mês mais seco do ano. No mês seguinte, em maio, ocorreu a cheia extrema, atingindo a maior superfície mensal dos 40 anos da série histórica. O bioma sofre com os extremos climáticos, que são apontados como a principal consequência das mudanças climáticas”, explica Juliano Schirmbeck.

A cidade de Corumbá (MS), com 96.268 habitantes (IBGE/22), é conhecida como a Capital do Pantanal (concentra 60% do território pantaneiro) e está situada na margem direita do rio Paraguai, na tríplice fronteira entre o Brasil, o Paraguai e a Bolívia (Prefeitura de Corumbá/MS)

 Está secando! 

Os dados do MapBiomas mostram também que a água antrópica cresceu 54% em relação a 1985, ou 1,5 milhão de hectares a mais. A maior parte da superfície de água identificada fica em biomas densamente habitados, como Mata Atlântica (1,33 milhão de hectares – 33%) e Cerrado (984 mil hectares – 24%).

A maior perda de superfície de água se deu em corpos naturais, como rios e lagos. Embora ainda respondam por mais de três em cada quatro hectares cobertos por água no Brasil (77%), eles perderam 15%, ou 2,4 milhões de hectares a menos de superfície de água natural, na comparação com 1985. 

Dois dos três estados que mais perderam superfície de água em 2024 são do Pantanal. O ranking é liderado pelo Mato Grosso, que perdeu 291 mil hectares de superfície de água – uma queda de 34% – seguido pelo Amazonas e Mato Grosso do Sul, ambos com redução de 275 mil hectares. Como esses estados têm tamanhos bem diferentes, esse número representou uma retração de 6%, no caso do Amazonas, mas de 33%, no caso do Mato Grosso do Sul – percentual semelhante ao do outro estado pantaneiro. 

Quase metade (45%, ou 2.507) dos municípios brasileiros estiveram com superfície de água em 2024 abaixo da média histórica em 2024. Esse ranking é liderado por Corumbá, no Mato Grosso do Sul, que perdeu quase 260 mil hectares de superfície de água, o equivalente a 95% da perda registrada em todo esse estado. Em segundo lugar está Cáceres, no Mato Grosso, com menos 167 mil hectares (57% do total perdido nesse estado), seguida por Barcelos, no Amazonas, com menos 102 mil hectares (37% do total do estado). Corumbá foi, também, o município que mais perdeu superfície de água em 2024 em relação à média da série histórica: menos 54%.

Com informações, MapBiomas. 

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@mapbiomasbrasil


 

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