Logo Agência Cidades

#TrataBrasil

Falta de saneamento provoca 344 mil internações em 2024

Abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto podem reduzir em 69% a taxa de internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental

19 MAR 2025 - 14H28 • Por Wilson Lopes
Favela do Mandela, na zona norte do Rio de Janeiro, com esgoto correndo em meio às casas: Mulheres, crianças, pardos, amarelos e indígenas são os mais afetados pelas DRSAI - Vladimir Platonow/ABr

O Instituto Trata Brasil, em parceria com a EX Ante Consultoria, acaba de lançar o estudo ‘Saneamento é saúde: como a falta de acesso à infraestrutura básica impacta na incidência doenças (DRSAI)’. O material analisa a incidência de doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado no Brasil entre 2008 e 2024, apontando que, em localidades onde o saneamento é precário, cresce o número de internações e óbitos relacionados às Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI).

Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI):

• Doenças de transmissão feco-oral, como diarreias, salmonelose, cólera, amebíase, febre tifoide, hepatite A etc.; 
• Doenças transmitidas por inseto vetor, como a dengue, febre amarela, malária, doença de chagas etc.;
• Doenças transmitidas através do contato com a água, como esquistossomose e leptospirose; 
• Doenças relacionadas com a higiene, como conjuntivite, dermatofitoses etc.; 
• Geohelmintos e teníases, como ascaridíase, cisticercose etc.. 

Internações causadas por DRSAI 

Conforme o estudo do Trata Brasil, o país registrou um total de 344,4 mil internações por DRSAI em 2024. Isso equivale a uma redução média anual de 3,6% nos últimos 16 anos (foram 615,4 mil casos em 2008). O primeiro grupo com maior participação foi o de doenças transmitidas por inseto vetor: 49% do total, ou 168,7 mil internações no ano. Quase a totalidade deste número (164,5 mil), foi devido ao vírus da dengue. O segundo grupo com maior participação foi o de doenças de transmissão fecooral (grupo A) com 47,6%, ou 163,8 mil casos.

Entre os cinco grupos de DRSAI, a contribuição mais importante para essa redução do número de casos veio das doenças de transmissão feco-oral (grupo A). Esse grupo de doença tinha peso grande, em 2008, seguindo até 2024, e teve redução absoluta de 345,5 mil casos do número de internações, a maior queda nesse período. Entre 2008 e 2024, a taxa de queda das internações por doenças do grupo A foi de 6,8% ao ano. 

No Nordeste brasileiro, 77% das internações foram por doenças de transmissão feco-oral, com participações maiores desse grupo nos estados do Maranhão, Bahia e Ceará. Na região Norte, o número de internações por doenças de transmissão feco-oral também prevaleceu sobre as doenças transmitidas por inseto vetor: 27,2 mil das 35,4 mil internações foram de doenças do grupo A e apenas 7,5 mil do grupo B.  

No Norte, a taxa de incidência alcançou aproximadamente 19 casos por dez mil habitantes em 2024. Em todos estados, com exceção de Tocantins e Roraima, a taxa de incidência ficou entre 15 e 25 internações a cada dez mil habitantes. Os estados em pior situação foram o Amapá, com 24,6 internações por dez mil habitantes, Rondônia, com 22,2 internações por dez mil habitantes, e o Pará, com 21,9 internações por dez mil habitantes. 

Em toda a região houve a prevalência de internações por doenças de transmissão feco-oral. No caso do Pará, a taxa de incidência de internações por doenças de transmissão feco-oral atingiu o maior índice entre os estados do Norte: 18,2 casos a cada dez mil habitantes.

No Nordeste, região em que prevalecem as doenças de origem feco-oral, e cuja taxa alcançou 16,420 internações a cada dez mil habitantes, os destaques negativos foram o Maranhão, com 45,8 casos por dez mil habitantes, e o Piauí, com 20,835 casos a cada dez mil habitantes. O estado da Bahia registrou taxa superior à média nacional. Importante destacar que o Maranhão foi o pior estado na análise de incidência total quanto na de incidência feco-oral. 

Rio Faria-Timbó, em Manguinhos, no Rio de Janeiro: a universalização do saneamento deve acontecer em um ritmo muito mais rápido do que o atual, se o país quiser melhorar a expectativa e qualidade de vida das populações mais vulneráveis (Tânia Rêgo/ABr)

Populações vulneráveis

Na conclusão do estudo, o Trata Brasil afirma que a disponibilidade de serviços de saneamento tem efeitos acumulados no tempo sobre as taxas de incidência de internações por DRSAI no Brasil. 

“Pode-se afirmar que a chegada do abastecimento de água e da coleta e tratamento de esgoto a uma população que antes não tinha acesso a esses serviços deve reduzir em 69,1% a taxa de internações por DRSAI desse grupo populacional após 36 meses da intervenção”. 

Para o Instituto, a universalização do saneamento deve acontecer em um ritmo muito mais rápido do que o atual, se o país quiser melhorar a expectativa e qualidade de vida das populações mais vulneráveis. Para Luana Pretto, presidente-executiva do Trata Brasil, os efeitos do saneamento nas DRSAI são sentidos ao longo do tempo. 

“O avanço do saneamento básico no Brasil irá reduzir a incidência de uma série de doenças, que infelizmente, como vimos, impactam mais severamente as crianças, os idosos, mulheres e pessoas autodeclaradas pardas, amarelas e indígenas. É muito triste ver que no Brasil, país que será sede da COP-30 este ano, ainda aconteçam quase 350 mil internações por DRSAI. Precisamos priorizar investimentos que promovam o acesso a água tratada e coleta e tratamento dos esgotos se quisermos atingir as metas do Novo Marco Legal do Saneamento. Priorizar o tema hoje é ter um Brasil no futuro mais próspero e saudável”. 

O Instituto Trata Brasil (ITB) é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) com foco nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país. O ITB produz estudos, pesquisas e projetos sociais visando conscientizar o cidadão comum do problema e, ao mesmo tempo, pressionar pela solução nos três níveis de governo. 

Com informações, Ivan Rocatelli e Isabella Falconier, Instituto Trata Brasil (ITB).
@tratabrasil

Acesse o estudo ‘Saneamento é saúde: como a falta de acesso à infraestrutura básica impacta na incidência doenças (DRSAI)’>>